Ainda não é o fim - Uma escatologia para o tempo presente

 

Lembrando dos últimos acontecimentos que presenciamos pela televisão, ou pela internet, veio a minha mente este texto de Salomão:

Ecl 5:8 Se vires em alguma província opressão de pobres e o roubo em lugar do direito e da justiça, não te maravilhes de semelhante caso; porque o que está alto tem acima de si outro mais alto que o explora, e sobre estes há ainda outros mais elevados que também exploram.

Salomão nos lembra que um sistema corrupto é um sistema piramidal, onde todos se apoiam e exploram mutuamente, desde a província até o governante. A ironia deste texto é que o autor é rei de Israel, por isso não sabemos se há uma confissão velada de culpa, porque após a morte de Salomão, os filhos de Israel pediram a Roboão uma diminuição da taxa impositiva do pai (1 Reis 12:4) e clamaram pela opressão que sentiam pelo jugo do rei mais virtuoso e sábio que houve na terra (novamente, ô ironia de um contraditório Salomão!)

Quando a corrupção se torna o estándar de um governo, todos tentam copiar o modelo de opressão, porque a parcela que cada um recebe vai em aumento na medida em que sobe a pirâmide, porque vão recebendo dos que estão no estrato inferior, e eles dos outros. Opressão que vai descendo, dinheiro que vai subindo. Poucos são felizes, mas o povo é quem paga as consequências do sistema perverso do tráfico de influência, do acobertamento dos delitos dos outros e do dinheiro fresco que cala as vozes disidentes.

Mas, Salomão não nos deixa sem a fina ironia que lhe cabe num livro como Eclesiastes. Vejam o que segue no capítulo:

Ecl 5:9 O proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo.

Percebe a nota do Sábio sobre o rei? A terra é para todos, inclusive para o rei. O rei precisa do cultivo, da produção da terra, daqueles que, com o suor da frente, trabalham noite e dia para produzir para suas famílias e manter o governo cruel e opressor. A base oprimida é quem sustenta o reinado, mas os governantes, quando opressores, se esquecem que eles dependem do trabalho, da produção, do imposto de cada homem e mulher que trabalha e investe no território. Podemos dizer, sem sombra de dúvida, que os governantes são parasistas do sistema.

Por que é importante pensar desta maneira? Porque Roboão, o filho de Salomão, viveu na pele a consequência de reinar num sistema que tinha se convertido numa máquina moedora das pessoas: o quebre institucional do reino, com a divisão formalizada: ele não diminuiu os impostos, pelo contrário, ameaçou com aumentar eles ainda mais. O resultado foi que Israel elegeu Jeroboão como rei, e o fim de uma nação que deveria estar unida pelo Nome do Senhor.

Pode perguntar, nesta hora, onde está a escatologia neste texto tão sombrio?

A resposta está no contentamento, na alegria e na esperança de que o nosso pão diário vem do Senhor, mesmo neste mundo hostil e miserável. Veja como Salomão segue:

Ecl 5:10-12 Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda; também isto é vaidade. (11) Onde os bens se multiplicam, também se multiplicam os que deles comem; que mais proveito, pois, têm os seus donos do que os verem com seus olhos? (12) Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir.

Mesmo oprimido, o trabalhador não vai abraçar a teoria satânica de “luta de classes opressor/oprimido” como bandeira. Ele vai ter um sono doce, porque sabe que agrada a Deus na simplicidade da vida (Ecl 9:7-10). O rico, porém, viverá na avareza desmedida, vai querer mais e mais e nunca terá paz verdadeira; poderá morrer na opulência e com muita pompa, mas o final será amargo, eternamente perdido e se lamentando por não ter ajuntado tesouros nos céus.

A escatologia não é somente sobre os tempos do fim, mas sobre a esperança que nos leva a desejar esses dias. Por isso, para um cristão, a esperança do reino vindouro de Cristo é o ponto de sanidade que temos: saber que tudo isto é passageiro, que o governo dos homens é delegado por Deus e que todos eles serão julgados pelo Juíz da terra de acordo com o grau de autoridade que receberam (as profecias do Antigo Testamento são fartas neste assunto).

Podemos ver a injustiça neste mundo, e saber que, dentro dos círculos do poder, ninguém escapa da corrupção, das injustiças e da opressão (é só pensar nos altos impostos que pagamos, a luta por aumentar o salário mínimo e a facilidade que eles têm para aumentar os deles, assim como seus benefícios). Mas, entendemos que neste mundo que está governado por pessoas pecadoras, devemos fazer duas coisas:

  1. Denunciar o pecado, exercendo o nosso papel como voz profética. A Igreja jamais passou pano de políticos, reis, governantes e juízes. Todos foram julgados por Aquele que é Rei, Legislador e Juíz. E a Igreja é o arauto que proclama a mensagem divina de juízo, arrependimento e reconciliação.

  2. Aguardar o retorno de Cristo com ansiedade santa, entendendo que somente nele teremos a completa justiça, paz e alegria. Mesmo com governantes justos haverá injustiças, corrupção e maldade; mas quando Cristo reinar, tudo isso acabará.

O reino de Deus, a plena justiça, paz e alegria, está se formando gradativamente. Cada coração convertido pelo próprio Senhor experimenta isso de uma forma gradativa. E quando a Igreja cumpre sua missão na terra, o mundo se enche de pessoas que experimentam a vida de Deus, trazendo como resultado um número maior de justos que vivem para o Senhor no meio de um mundo injusto. Desejando o retorno de Cristo, pregam para que o reino de Deus se estabeleça em cada vida, e assim erradicar a maldade do mundo, pela ação do Espírito de Deus, pela reconciliação que temos no Pai por Cristo Jesus.

Hoje, mais do que nunca, devemos viver e pregar com o olhar duplo dos profetas: num olhar no presente, denunciando as injustiças, os pecados e a maldade; apontando para Cristo como a única esperança neste presente tenebroso, e olhando para seu Reino vindouro, orando para que venha e estabeleça seu governo poderoso e firme. Assim, poderemos dizer como o apóstolo Paulo: “Maranata, ora vem Senhor Jesus!”

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